Aristides Dias
No meu tempo de pré-adolescente, na pequena e pacata cidade do oeste do Pará, bem no estreito do rio mar, a mais portuguesa da Amazônia, a enladeirada Óbidos; os cachorros não usufruíam desse trato que hoje existe para com eles.
Os cachorros de antigamente comiam o que encontrassem pela frente, vacina era coisa rara, quem fosse mordido que tratasse de tomar antirrábica, banho eram poucos que tomavam com frequência e a maior parte do tempo viviam nas ruas.
Diferentemente de hoje que tem até carrinho para passear no shopping, plano de saúde, hospital, hotel, casas de banho e tosa, ração de todo tipo e um monte de coisa que o ser humano tem.
Na minha época, em Óbidos, tínhamos um cachorro chamado Juba, que foi de Belém para o interior, ele era hermafrodita, uma raridade, principalmente na minha terra. Logo que chegou era paparicado pelos vizinhos, pois era peludo que nem um poodle, mas não demorou muito tempo para entrar no ritmo da cachorrada tupiniquim e logo estava pelas ruas Pauxis, correndo atrás de galinha, brigando com outros cachorros, entrando pelos fundos de casa e por aí vai.
Lembro de dois cachorros que eram considerados os xerifes do meu setor, que era a praça de Sant’Ana; falo do Dog, um cachorro considerado grande e que era muito brabo, era de propriedade do senhor Vicente Moura, ou Cabo Moura, como era mais conhecido. O animal vivia preso no quintal e só atendia os seus donos – quando eles se descuidavam e deixavam o cachorro escapolir pra rua, era uma correria geral e não ficava uma viva alma humana e animal na Alexandre Rodrigues de Sousa.
Outro cachorro temido no pedaço era o King, da família de D. Chaguita, que devia ter o mesmo tamanho do Dog, mas foi criado mais solto e não era brabo como o Dog, mas exercia uma liderança absoluta na praça – cachorro nenhum se atrevia adentrar naquele espaço sem autorização do King. Vi várias vezes ele botar pra correr esses penetras. Certa vez um cachorro preto, do mesmo porte físico do King desafiou o xerife da praça em seu próprio território, foi uma briga selvagem que ninguém se atreveu a sapará-los. No final o King levou a melhor, mas enfrentou um adversário a altura.
Tinha um pequenininho, que latia só pra dizer que ele existia, era o Tupi da D. Valdéia, se fosse transformar os anos que ele viveu para uma idade de uma pessoa, arriscaria que ele chegou perto dos cem anos. Lembro que já não enxergava mais de tanta velhice.
Um cachorro que eu tinha medo era o Pluto, do seu Tito Couto, de pelos brancos e de médio porte, ele vivia brabo e não gostava que ninguém passasse pela calçada de sua casa que avançava, se o portão estivesse aberto era um Deus nos acuda. Quando eu tinha que ir ao IBGE com o papai, eu dava a volta lá pelo seu Aluízio Brasil e quando esquecia do trajeto e já estava perto da casa do Pluto, eu pegava uma pedra e jogava pro sentido oposto do meu caminho, ele corria atrás da pedra e eu corria pro IBGE.
Assim a gente conseguia se entender com os pets da época. Hoje a realidade é outra. Minha irmã tem uma cachorra de uma marca difícil de falar, leva o animal no médico(veterinário) pra emergência, dá banho, tosa, e chama ela de minha filha, fala com ela feito gente, diz que minha mãe é avó dela e que eu sou tio. O mundo pet mudou.
Obs: Com 149,6 milhões de animais de estimação, segundo o censo do IPB (Instituto Pet Brasil) de 2021, o Brasil é o terceiro país em número de animais domésticos. Considerando os 215 milhões de brasileiros, pelo menos 70% da população tem um pet em casa ou conhece alguém que tenha.
A preferência do país é pelos cachorros: 58% das casas têm cães, 28% têm gatos, 7% têm peixes e 11% têm aves, de acordo com a consultoria alemã GFK, que levantou dados de 22 países para descobrir a distribuição dos animais em cada local. A média mundial indica que 33% dos lares têm cães, 23% têm gatos, 12% têm peixes e 6% têm aves. (Fonte: Forbes).