Silvestre Savino Neto
Beatriz Amaral Costa Savino
A cidade de Óbidos começou como uma fortificação, em 12 de dezembro de 1697, chamado de Forte Pauxis, nome dos índios que habitavam a região. O governador da Província do Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, em 25 de março de 1758, juntando as aldeias dos índios Konduris, dos Barés a dos Pauxis, eleva a condição de Vila, dando o nome de Óbidos, que em latim significa ”cidade fortificada’‘, em homenagem a cidade portuguesa. Em 02 de outubro de 1854, o Governador da Província Sebastião do Rego Barros, através da Resolução nº 252, transforma a vila em cidade, emancipando-a política administrativamente1,2. Está localizada na margem esquerda do rio Amazonas no seu ponto mais estreito, chamado por Paul Le Cointe de garganta do Amazonas com cerca de 1892 metros de largura, no alto de uma colina, e pela sua importância estratégica era passagem obrigatória nas rotas Belém-Manaus-Belém, servindo de base do Quarto Grupo de Artilharia de Costa do Exército Brasileiro, para a defesa da soberania do país na região2,3.
Para entendermos melhor o contexto histórico e sua importância, no censo de 1920, o Pará e a cidade de Belém tinham uma população de 983.507 e 236.402 habitantes, respectivamente. Óbidos, com aproximadamente 6.000 habitantes, a 1.100 km de Belém, cujo único meio de transporte era o fluvial, quando havia pacientes com necessidade de internação tinham que ser removidos para a capital4,5.
A criação de um hospital de caridade em Óbidos, foi um ideal do Capitão Médico Dr. João Braulino de Carvalho, que em 1920 planejou construir um Hospital de pequeno porte, que pudesse fazer cirurgias, internações e partos, iniciando uma grande campanha junto à população para angariar donativos6.
O Conselho Municipal sob a presidência do Dr. Augusto Correa Pinto, votou a lei nº 119 de 30 de julho de 1920, autorizando incluir no orçamento para o exercício financeiro de 1920-1921, a quantia de Dez contos de Réis como auxílio pecuniário ao ” Socorros a Indigentes” para a construção e instalação de um Hospital de Caridade que ficaria sob a responsabilidade do Dr. João Braulino de Carvalho6.
Houve uma grande mobilização na cidade, e um grupo de senhoras da sociedade Obidense, tomou para si o encargo de realizar quermesses com a finalidade de obter recursos para a grande obra, iniciando uma campanha com o seguinte apelo6:
” A família Obidense que numa hora feliz, tomou a seu encargo adquirir donativos para a criação de um hospital de caridade nesta aprazível e salubérrima urbs, applaudindo a ideia do plecaro brasileiro Dr. João Braulino de Carvalho, popularíssimo facultativo que tantos benefícios tem prestado aos pobres desta terra.”
”Certos de que não recusareis concorrer, na medida das vossas forças, para o engrandecimento da bôa terra, do nosso berço, a comissão desde já agradece do fundo d’alma, a vossa generosidade, rogando a deus pela feliz continuação dos vossos dias.”
Óbidos, 20 de setembro de 1921.
(aa) Maria M. de Pina Printes, Antonia de A. Côrrea Pinto, Maria Meirelles Muniz, Izabel dos Santos Arruda, Feliciana Bayma, Florinda Bentes Cezar, Cleonice M. de Figueiredo, Juventina Filizzola, Leonor Castro de Andrade, Benedicta Bentes Vieira, Sylvia Bayma Almeida, Filomena Miléo, Wulphilda L. de Moraes Rego, Maria Bayma Nogueira, Julia Bentes Papaléo, Adelina Louro Vieira, Perpetua Monteiro Figueira e Jacintha Figueiredo.”
Foram realizadas um total de cinco quermesses, a primeira em 16 de outubro de 1921 sob a presidência do Dr. João Braulino de Carvalho, a segunda em 20 de novembro de 1921, sob a presidência do Frei Rogerio Vogues, e a quinta em 26 de agosto de 1922, presidida pela Sra. Adelina Louro Viera6.
Em suas memórias, a Senhora Auta Arruda do Amaral escreveu: ‘’Das festas do Centenário, lembro da barraca central com cortinados de renda onde se via em alguns pontos de borboletas coloridas, de papel crepom. Não era por acaso, minha mãe cortou o cortinado de rendas de sua cama para fazer as cortinas da barraca e disfarçou com flores e borboletas de papel, com alguns rasgões indiscretos. Da quermesse, sei que minha mãe ofertou uma pulseira de ouro que foi arrematada por 100.000 (cem mil réis). Moças da sociedade usavam graciosos aventais, ofereciam doces e outras guloseimas aos que se aproximavam. Todo rendimento da festa, reverteu em benefício da Santa Casa de Misericórdia. O Dr. Braulino de Carvalho, maranhense de nascimento deixou em Óbidos os maiores exemplos de altruísmo, de abnegação, de completa dedicação ao hospital que fundou, ao povo que conquistou.7’’
Em fevereiro de 1922, foi adquirido um prédio na rua 13 de maio, que foi totalmente readaptado para receber as instalações do novo hospital, sendo constituído de duas salas assoalhadas e forradas com venezianas, destinada a enfermaria geral, dois quartos de enfermaria para pensionistas, um alojamento para enfermeiras, uma sala de maternidade com três leitos e uma sala de cirurgia, que na entrada tinha os seguintes dizeres ”Qul bene diagnoscit, bene curat ” (bem diagnosticado, bem cuidado), aparelhada com rigor científico e uma sala para consultório6.
Foi inaugurada no dia 07 de setembro de 1922, em comemoração ao Centenário da Independência do Brasil, informação registrada em telegrama enviado pelo Dr. Augusto Correa Pinto ao Dr. Camillo Salgado, Diretor da Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará, sendo também criada a Associação de Caridade Santa Casa de Misericórdia de Óbidos, cuja diretoria corresponderia a mesma do Hospital, sendo lavrada a ata6:
Presidente- Dr. Augusto Correia Pinto
Vice-Presidente – Juiz Abdias dos Santos Arruda
Diretor-Fundador – Dr. João Braulino de Carvalho
1º Secretário – Antonio Caminha Muniz
2º Secretário- Senhorita Adelina Louro Vieira
Tesoureiro – Frei Rogerio Voges
Em 1953, na gestão do Dr. Raymundo da Costa Chaves foi iniciado a construção de um novo prédio na travessa Rui Barbosa 331, o terreno ao lado pertencia à Sra. Nila do Amaral, um casarão rodeado por quase um quarteirão de quintal. Em uma de suas idas a Óbidos, pois morava no Paraná de Dona Rosa, e a pedido do então prefeito, uma parte desse quintal foi doada para a construção8. Posteriormente, foi finalizado pelo Bispo Don Floriano Loewenau no final da década de sessenta. Atualmente, a Associação da Caridade Santa Casa de Misericórdia e o Hospital, que agora se chama Don Floriano na Providência de Deus, são administrados pela Diocese de Óbidos e pela Associação e Fraternidade São Francisco de Assis na Providência de Deus, desde 4 de junho de 2014. Está sendo construído um novo hospital, estando em funcionamento 78 leitos, e quando finalizado terá capacidade para 110 leitos, atendendo a uma população de aproximadamente cinquenta mil habitantes, permanecendo até os dias de hoje como o único hospital da região para internação9.
Como nas palavras da época de sua fundação: ” uma obra de grande alcance moral e patriótico, iluminada ao sol vibrante da região e bafejada pelos melhores auspícios do sentimento humano6”.
O Capitão-Médico João Braulino de Carvalho foi uma figura exponencial em sua época, intelectual, escritor, filantropo, fundador do Curso de Medicina da Universidade Federal do Maranhão e Patrono da Cadeira nº 20 da Academia Maranhense de Medicina. Lima, 2022 em sessão no Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão o descreve como ” ilustre médico maranhense João Braulino de Carvalho, um dos primeiros sócios do IHGM e fundador da Cruz Vermelha no Maranhão, permaneceu na presidência por duas décadas, de 1933 a 1953, em tempos difíceis, quando o Instituto sofreu perseguição política dos governantes maranhenses, sendo despejado de sua sede, durante o período do Estado Novo (1937-1945)”. As suas realizações em Óbidos merecem todo o reconhecimento, pela sua visão de construir um Hospital, em tempos remotos, em uma pequena cidade do interior do Pará, demonstrando toda a sua capacidade, comprovada pela trajetória construída ao retornar à terra natal 10,11,12.
Atualmente, tem seu nome homenageado com nome de rua, CEP 65051-305, na cidade de São Luís do Maranhão.
Passados mais de cem anos da Fundação da Santa Casa de Misericórdia de Óbidos, a semente floresceu, cresceu, permanecendo vivo o sentimento e os valores que permearam ao da sua criação, que é o de atender e amparar os mais necessitados em suas enfermidades, tornando-se perene.
No Estado do Pará, foram criadas, somente, duas Santas Casas de Misericórdia ao longo do tempo, a de Belém, fundada em 24 de fevereiro de 1650, e a de Óbidos, o que demonstra o protagonismo e a importância da cidade no contexto histórico da época.
Referências :
1- História- Prefeitura Municipal de Óbidos. Disponível em: https://obidos.pa.gov.br> história. Acesso em 25 set. 2024.
2- Carlos Miguez Garrido. Fortificações no Brasil. 2ª ed, 2003.
3- Paul Le Cointe. O Estado do Pará. A terra, a água e o ar. Companhia Editora Nacional,1945.
4- Censo demográfico- Biblioteca Digital. Disponível em: https:// bibliotecadigital.seade.gov.br. Acesso em: 10 Jul. 2024.
5- Walter Pinto de Oliveira. Memórias de uma revolta esquecida: o Baixo-Amazonas na revolução constitucionalista de 1932. Dissertação (Mestrado)- Universidade Federal do Pará, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia, Belém, 2012.
6-Pará-Médico, n.10, v.2, 1922.
7- Auta Arruda do Amaral. Memórias. Belém: [s.n], 2002, p. 10.
8- Ademar Amaral. Catalinas e Casarões, capítulo 16, página 138, 2019.
9- Santa Casa de Óbidos. Disponível em: https://www.franciscanosnaprovidencia.org.br. Acesso em: 20 Set. 2024.
10- Célio Simões. Galeria Pauxiana. Disponível em: in https://hi-in.facebook.com > groups. Acesso em 15 Out. 2024.
11-Academia Maranhense de Medicina. Disponível em: https://ambmaranhao.com.br.Acesso em 20 Out. 2024.
12- IHGM EM REVISTA, Número 1 – abril a junho 2022.