
Em mesa de bar tudo pode acontecer, já disse isso uma vez. Depois do terceiro ou quarto copo a língua fica solta, os verbos se soltam e as histórias aparecem naturalmente.
Numa noite, em uma mesa de bar, escutei a história de um tocador de violão que aprendeu a tocar o instrumento sem as cordas. Isso mesmo, sem as cordas.
Quando criança ele percebeu sua paixão pelo violão, pois tinha um vizinho que sempre reunia os amigos para uma cantoria na sua casa, ele ainda pirralho, ficava na calçada escutando o som do violão, isso toda vez que ele dedilhava a viola na sua casa.
Seu pai era marceneiro e, ao ver a fissura do filho pelo instrumento, resolveu fazer um para o garoto. Foi atrás de madeira e com resiliência começou a construir o tão sonhado objeto de desejo do filho. Depois de alguns meses, finalmente o violão estava pronto para ser usado, o que deixou o coração do menino bater mais acelerado do que nunca. Era paixão mesmo.
A madeira utilizada pelo marceneiro foi o cedro, que ele pegou da obra em que ele trabalhava como encarregado de carpintaria. A parte curvada do instrumento o nosso personagem não lembra como foi feita, mas lembra que ele levou tiras dessa madeira, usou bastante a plaina até ficar mais fina e para conseguir a maleabilidade ele passou uma espécie de gordura ou sebo, aqueceu e deixou a madeira tensionada por vários dias.
Esse processo se repetiu por semanas, sempre tensionando cada vez mais, até conseguir de fato a maleabilidade. Ele Lembra que o corpo do violão foi coberto por laminado marrom. Já no braço, os trastes foram feitos serrando aqueles perfilados de alumínio com serra de arco. Como o par de tarraxas era caro para o bolso dele na época, ele fez cravelhas. As cordas usadas no primeiro momento foram aquelas Canário da Gianinni, cordas de aço
Com o violão pronto, faltava agora fazer o teste. Feito o teste, o experimento não deu certo, quando apertava as cordas a madeira encolhia, frustrando, em certa parte, as expectativas do futuro violonista, que não se abateu, pegou o instrumento e desenhou as cordas no violão. Comprou uma revista do Roberto Carlos, da época com os acordes das músicas e passou a fazer no violão, os acordes colocando os dedos nas cordas pintadas, de acordo com a posição das notas e cantava as músicas que gostava e assim passou a tocar o violão sem as cordas, durante um bom tempo. A primeira música que aprendeu foi Coimbra, do rei Roberto Carlos.
Passaram-se os anos, já grandinho, seu irmão o presenteou com um violão de verdade, deixando-o na maior felicidade. Daí foi um passo para se tornar um grande músico que hoje derrama seu talento nas noites de Belém.