Há diferentes formas de medir o tempo. Existe o tempo do relógio, das agendas, dos prazos. O tempo da maternidade.
E, de repente, chega o tempo dos avós, trazendo um convite radical: habitar o tempo de uma forma completamente nova. Parece que o relógio soa diferente, com menos tic-tac e mais melodia. A agenda apertada dá respiro aos dias. Tudo se alarga: a vontade, a possibilidade, a sabedoria.
Quando eu ainda não era avó, uma amiga me disse que eu sentiria um amor oceânico. Agora, com três netos, entendo bem o que ela anunciou. Não é maior do que o amor pelos filhos, mas é diferente: sem margens, fluido e transbordante. Um tipo de amor abraçado pelo tempo.
Tempo passado: a vida deixa marcas
Quem tem ou teve contato com avós carrega memórias afetivas desses momentos passados juntos. Aquele bolo com gosto de infância, as férias inesquecíveis, uma frase que ficou para a vida toda, um cheiro especial, uma canção de ninar, uma marca. Passagens que coloriram nossos passos com um tipo de afeto que continua vivo na memória do coração. Instantes que marcaram e cuja lembrança reaviva o amor.
Tempo presente: a vida é aqui, agora
Muitos avós têm a sensação de que o coração cresceu. Isso porque, com os netos, experimentamos uma presença com mais qualidade e entrega. Vivemos o tempo presente. E isso amplia nosso repertório emocional, favorecendo emoções positivas como a gratidão, a esperança, a alegria, o interesse, a admiração e, claro, o amor.
Avós sabem que o tempo passa rápido e absorvem cada instante com os netos, com menos críticas e mais abertura, menos expectativas e mais acolhimento, menos obrigação e mais liberdade. Brincar, observar, abraçar ou rir junto é tudo o que importa. Essas simples atitudes fazem com que o amor se renove e o tempo presente dos avós se torne tão especial.
Tempo futuro: a vida continua
Na maturidade, temos o desejo de deixar sementes. Começamos a pensar nos legados que vamos entregar ao mundo. Os netos despertam isso naturalmente, pois avós transmitem histórias, valores, memórias e afetos. São sementes que deixam uma contribuição invisível e concreta, e que se perpetuam no futuro graças ao tecido invisível do amor, que marca essa relação indescritível.
O tempo futuro dos avós é aquele envolvido pelo que é essencial. Está conectado com o ser mais profundo que somos, e não pela urgência do dia a dia. São as sementes que brotarão no futuro das próximas gerações, gerando frutos e alimentando uma espiral ascendente de amor.
Tempo transcendente: a vida importa
Os netos frequentemente lembram aos avós algo precioso: a capacidade de se maravilhar com a vida. Uma joaninha. Uma poça d’água. Uma concha. A chuva. Uma pergunta que não sabemos responder. Esses momentos vão além do tempo cronológico. É o tempo da transcendência, conectado ao significado maior da vida, envolto em encantamento, com a clara sensação de que fazemos parte de uma história muito maior.
A psicóloga e cientista americana Barbara Fredrickson descreve o amor como micromomentos de conexão. E os netos oferecem esse banquete aos avós inúmeras vezes ao dia. Não é sobre controle, posse ou obrigação. É sobre fluidez, encantamento e presença. Quando o amor está presente, amplia nossa forma de perceber o mundo.
O tempo dos avós não corre para chegar a algum lugar. Ele simplesmente é. Cada micromomento de amor gera mais amor. O tempo passado, presente, futuro e transcendente coexistem, alimentando e sendo alimentados pelo amor, em um movimento circular que expande o melhor que existe em nós.
O tempo dos avós não é conduzido pelo tic-tac do relógio, e sim pelo tum-tum do coração…
*Deborah Dubner é psicóloga e escritora, autora de sete livros sobre autoconsciência, evolução pessoal e Psicologia. Palestrante TEDx, especialista em Neurociência, Psicologia Positiva e Ciência da Felicidade, é professora de pós-graduação em Motivação e Resiliência e conduz cursos e grupos de prática sobre amor e gratidão no cotidiano.