Aristides Dias

Na considerada maior feira livre da América Latina acontece de tudo e nós, moradores de Belém, somos privilegiados por vivenciarmos tantas e tantas coisas nesse Ver-o-Peso que recebe algo em torno de 20 mil pessoas por dia. Nesse lugar, mais do que um ponto de compra e venda, também se aprende a viver a cidade e conhecer um pouco mais a Amazônia.
Outro dia estava eu, a procura de ingredientes para um banho de cheiro, pra tradicional festa junina que meu pai realizava quando vivo, no dia 23 de junho, não importando o dia da semana. Hoje, mantemos a tradição.
E como era véspera da festa, a visita no Veropa se torna inevitável para as compras do material das guloseimas e do tradicional banho de cheiro que leva priprioca, patchouli, arruda, cumaru, alecrim, baunilha, pataqueira, manjerona, açucena, louro amarelo e outras ervas cheirosas que deixam o brincante junino que nem filho de barbeiro.
E foi justamente quando eu estava fazendo a minha compra do banho cheiroso, que na barraca ao lado um casal de gringo tentava comprar algum preparado das erveiras que por lá labutam. Mais do que uma profissão, as erveiras representam uma tradição de gerações com essências, ervas e banhos atrelados à ancestralidade fortemente ligados às raízes africanas e indígenas.
A vendedora ao lado, gastava seu “latim” mostrando tudo que tinha em sua barra (chora nos meus pés, chama dinheiro, chama emprego e por ai vai e o casal de gringos, nada), mas pelo que vi, não tinha o que os gringos queriam.
A cheirosa do lugar já estava cansando de tanto falar de seus produtos aos gringos que pareciam ser alemães. E eu, só observando a técnica de venda da erveira. Foi quando o casal de gringos cheio de sotaque perguntou: “Você tem bucheta de boto?” Ela, com a paciência já nem tanto cheirosa como suas ervas, respondeu: “Boto não tem buceta, quem tem buceta é bota”.
Com certeza o casal de gringo aprendeu um pouco mais sobre a Amazônia, diretamente da feira do Ver-o-Peso.