Dr. Salomão Kahwage Neto

O conceito de gastrite, particularmente seu significado clínico, é um dos tópicos mais confusos da gastroenterologia. Apesar da enorme evolução que tem ocorrido nos conhecimentos sobre gastrites, ainda existem muitas lacunas no entendimento dessa entidade que acomete enorme parcela da população mundial. Em uma tentativa de cunhar uma definição que seja ao mesmo tempo atual e ampla, diríamos que as gastrites representam um grupo heterogêneo de alterações da mucosa gástrica (parede interna do estômago), decorrentes de injúria de variada origem, usualmente associada a uma resposta inflamatória aguda, crônica ou mista.

Os pacientes costumam classificar qualquer dor de estômago ou mal-estar relacionado à digestão como gastrite, o que nem sempre está correto. É comum, por exemplo, a azia ser considerada um sintoma de gastrite. No entanto, na maioria das vezes ela é sintoma do refluxo gastresofágico, já dispepsia é o termo para dor ou desconforto recorrente ou persistente no abdome superior e pode várias causas incluindo problemas no estômago, vesícula biliar, fígado e pâncreas.

 O estômago é um órgão de extrema importância para o processo de digestão dos alimentos. Nele encontramos vários tipos de células com diferentes funções. Algumas produzem enzimas que ajudam na quebra dos alimentos e outras são produtoras deácido clorídrico, que é responsável pelo ambiente ácido característico desse órgão. Normalmente, há produção de um muco que revestindo internamente a parede do estômago, protege as células da agressão pelo ácido. Estruturalmente, o estômago assemelha-se a um saco com dois orifícios fechados por músculos: o esfíncter esofágico inferior, localizado em sua junção com o esôfago, e o piloro, entre o estômago e o duodeno. Esses músculos abrem-se periodicamente para dar passagem aos alimentos e se fecham a seguir. Esse abrir-e-fechar provoca contrações de cima para baixo que empurram o alimento: é o que se denomina de movimento peristáltico, um fenômeno fisiológico característico da musculatura dos órgãos ocos.

 As causas da gastrite são diversas:

  • Helicobacter pylori é uma bactéria que vive dentro da camada de muco protetor do estômago. Geralmente é adquirida na infância, mas tende a permanecer pelo resto da vida, caso não seja tratada. A gastrite não é causada pela bactéria em si, mas pelas substâncias por ela produzidas, que ao agredirem a mucosa gástrica, podem causar, além da própria gastrite, também a úlcera péptica, e, no longo prazo outras complicações.
  • Medicamentos: o uso de aspirina e de outros anti-inflamatórios não-esteroides, quando usados regularmente por um longo período, também podem vir a produzir gastrite e úlcera.
  • Álcool: pode levar à inflamação e dano gástrico quando consumido em grandes quantidades e por longos períodos.
  • A rotina agitada e o estresse constante podem piorar ou desencadear sintomas de gastrite. Cuidar da mente é também cuidar do corpo.
  • Gastrite autoimune: em situações normais, o nosso organismo produz anticorpos para combater fatores agressores externos. Noutras circunstâncias, entretanto, pode haver produção de anticorpos contra as próprias células do organismo, de que decorrem vários tipos de doenças. Na gastrite autoimune, os anticorpos levam à destruição de células da parede do estômago, reduzindo a produção de várias substâncias importantes.

A gastrite pode não apresentar sintoma algum, principalmente nos casos crônicos. Na fase aguda da doença, os sintomas mais comuns são dor ou desconforto na região superior do abdome; náuseas e vômitos. Quando surgem sintomas, são devido a outras condições ou complicações que podem acontecer pela gastrite, como úlceras. No caso de úlceras gástricas hemorrágicas, pode haver eliminação de sangue digerido pelas fezes (que ficam escuras), ou nos vômitos. A presença de empachamento logo após a alimentação, dor recorrente e perda de apetite são sintomas de alerta para condições mais graves e procurar avaliação médica.

Importante ressaltar que o diagnóstico de gastrite só pode ser firmado pela endoscopia digestiva alta, quando, ante a evidência de mucosa gástrica lesada, obtêm-se fragmentos (biópsia) para exame histopatológico.

O tratamento da gastrite depende da causa, na causada pelo H. pylori é tratada com a erradicação da bactéria por meio de antibióticos. A maioria dos planos de tratamento para gastrite também incluem medicamentos que reduzem a acidez estomacal para tratar os sintomas de dor e promover a cicatrização da mucosa do estômago.

Dor de estômago frequente, vômitos, perda de peso ou fezes escurecidas podem ser sinais de gastrite grave ou úlcera. Procure um médico. Tratar sem orientação pode mascarar sintomas importantes e atrasar o diagnóstico

Deixe um comentário

Exit mobile version