A psicóloga e escrito obidense, Ana Reis, lançou seu livro de poesias intitulado “Pescadora de Esperança” ontem(19) na Casa de Cultura, em Óbidos Pará. Na oportunidade, Ana falou um pouco de seu livro, como começou a escrever poesias e também de sua trajetória de vida. Ela também declamou algumas poesias que estão no seu livro, o que deixou o público presente muito entusiasmado com seus belos escritos.

Aonde Flutuam as Memórias

Quando eu era criança, costumava observar o grande manto das vitórias-régias, olhos atentos e curiosos – olhos de menina criada nas ribanceiras do grande rio-mar. Suas folhas gigantes, como barcos verdes, flutuavam sobre as águas escuras dos afluentes. Pareciam luas enormes, e em cada uma, com seus bastões em flor, eu percebia a vida transcorrendo devagar. Uma lentidão que o tempo, sem pressa, não via passar.
As garças e piaçocas, com seus longos pescoços e passos delicados e silenciosos, pousavam sobre elas como se tivessem escolhido o palco perfeito para suas danças. Eu as admirava não apenas pela beleza, mas pela coragem de tocar o grandioso – aquilo que eu não podia alcançar, apenas assistir como plateia. Confesso que sentia inveja. Queria ser garça: leve, capaz de tocar o que parecia inalcançável.
No silêncio entre o vento e a água do rio, eu sonhava pousar nas majestosas vitórias-régias, respingar reflexos, sentir as águas entre suas raízes, ouvir seus sons, seus crescimentos, sua floração. Mas os sussurros da voz da minha mãe – que ecoavam dentro da minha cabeça, dor de perder um irmão nos remansos e nunca encontraram, sequer o corpo – me acordavam . E eu não me aventurava a experimentar o que as aves se deliciavam.
Eu me perguntava se aquelas folhas-barco me levariam a desvendar mistérios, segredos que encerravam. Se eu saberia pousar sem afundar com meu peso-pena. Ser ave seria ser ponte entre a terra e o peito da água, oferecendo-se em promessa de equilíbrio entre o sonho de voar, a vontade de experimentar tão delicada pista de pouso, e o grito potente em minha mente que me fazia recuar.
Hoje, aos 70 anos, de volta ao solo sagrado da minha ancestralidade, as memórias flutuam como as vitórias-régias. Lembro da menina fina e calada que fui, cheia de perguntas que se estendiam além do que os olhos podiam ver. Navegava pela imaginação como quem navega por mundos misteriosos.
Com o tempo, aprendi que o mais importante não são as respostas que encontramos, mas as perguntas que fazemos. A curiosidade é o que nos move. O mistério não é um destino – é uma forma de caminhar.
As perguntas iluminam o caminho, guiam por mares tempestuosos, cortam a noite como remos e nos impulsionam, mesmo quando o rio é profundo demais.

Óbidos, 13/9/2025
Ana Reis Josaphat

“De onde vem a inspiração para meus poemas sensuais?
Essa pergunta me acompanha há tempos – feita por amigas, amigos e até por quem só me conhece virtualmente.
Então, respondo com uma paródia de Fernando Pessoa:

O poeta é um fingidor,
finge tão completamente,
que chega a fingir que é amor
o amor que deveras sente…
na imaginação.

Leio poemas que incendeiam minha alma, escritos por poetas que nem sabem que existo.
Mas esse sentimento… ah, ele nos atravessa a todos.
A poesia reflete o que vejo, ouço,leio e sinto – os amores do mundo e no mundo.
Porque poesia não se explica, se sente.Isso
vale para todos os temas poéticos.

E você? Já se perguntou de onde vem a sua inspiração?”

Óbidos-Pará, 20/9/25
Ana Reis Josaphat

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