Aristides Dias
Não sei se acontece com os amigos também, mas quando eu estou nos momentos de ociosidade sempre vem umas lembranças do meu tempo de meninice, as vezes até assistindo a um programa de televisão, ou num campo de futebol, shows etc. Algo me remete aos meus tempos de moleque na minha pequena e pacata Óbidos.
Outro dia minha mãe assistia o terço, aliás, ela assiste todos os dias, à tarde, e reza junto com a senhora que comanda as estações. Sempre com seu terço de crochê na mão. Pois bem, certo dia ela acompanhava o terço e eu, da cozinha acompanhava o andamento da reza, até que chegou a hora de rezar a “Salve Rainha”.
Foi quando me veio a lembrança dos meus 9 a 10 anos quando estudava o catecismo, com a senhora Ana Moda, uma mulher que estava sempre elegante e que tinha uma paciência de elefante, pois controlar uns 20 a 30 moleques num sol de 3 a 4 da tarde, doidos para saírem correndo para brincar, que nem passarinho quando sai da gaiola, haja paciência
Isso durante uns dois a três meses, a famosa preparação para receber a eucaristia, a desejada hóstia, a primeira comunhão. A cada dia que se aproximava, maior a ansiedade e haja lição para decorar – entre elas a “Salve Rainha”.
Já estava na semana da missa onde iríamos receber o Corpo de Cristo e a última lição era rezar a tal Salve Rainha que eu não conseguia de jeito nenhum decorar. Ficava pensando nos meus pais o quanto iriam ficar bravos comigo se eu não conseguisse passar na prova final. Seria uma decepção total, a roupa já estava pronta, sapato novo, meia nova e aquele café reforçado depois da missa, tudo isso iria por água abaixo.
Também pairava no ar, a preocupação se a hóstia iria grudar ou não no céu da boca, indicando pecados ou não. Se grudasse, podia contar que a gente tava cheio de pecado. Eu parava pra pensar, que tipo de pecado eu tinha cometido até então? porque ainda tinha a confissão com o padre para poder receber a hóstia de alma limpa. Mas o que um moleque de 10 a 11 anos poderia fazer pra ser considerado um pecador? Na minha cabeça só se fosse malcriação, isso eu fazia bem pouco, mas fugir pra jogar futebol, eu fazia sempre, então decidi falar isso pro padre e foi tudo bem. Me mandou rezar umas ave-marias e ficou tudo pago.
Mas a Salve Rainha era o “bicho papão” do meu catecismo. Chegado o dia do “juízo final”, eu me isolei de todos e botei pra ler a oração, acho que em 10 minutos eu li umas trinta vezes, até que chegou minha hora de dar a lição, se errasse estava fora da missa de domingo, que foi no Paroquial, visto que a catedral estava em reforma.
Professora Ana Moda me chamou, ela sentada na sua mesa, eu em pé, ela disse: “reze a Salve Rainha”. Minhas pernas trêmulas quase fazem eu passar vergonha; respirei fundo e mandei só de uma “vapada”, sem ponto, sem vírgula, direto, sem respiração – parecia que eu estava narrando uma partida de futebol. Acho que a tática que utilizei, sem pensar, foi para que ela não percebesse se por um acaso eu esquecesse alguma palavra, tal a rapidez no falar.
No final deu tudo certo, mas ao sair de lá, uns cinco minutos depois, eu já não lembrava mais da oração e até hoje não sei por completa. Só ficou isso na minha memória: Salve, Rainha, mãe de misericórdia, vida, doçura, esperança nossa, salve! A Vós bradamos, os degredados filhos de Eva. A Vós suspiramos, gemendo e chorando nesse vale de lágrimas… O resto só na lição com a professora Ana Moda.
