Célio Simões (*)

Assim, dizer que para ultimar determinada atividade que ela “NÃO PRECISA SER NARIZ DE SANTO”, resta claro a intenção de dizer a quem vai executá-la, que não é exigível perfeição, nada rigorosamente impecável, inquestionável ou que o executor deva ter alta especialização para realizá-la, bastando aquele conhecimento básico daquilo que vai ser realizado.
A expressão reforça a ideia de que a imperfeição humana é aceitável e que os erros ou defeitos encontrados na elaboração de qualquer obra, não impedem o reconhecimento da competência ou da boa intenção do executor, porquanto a boa intenção e a vontade de acertar de alguém, importa mais do que a fama ou da perfeição, que muitas vezes serve de mote para cobranças abusivas da contraprestação daquilo que foi feito, só porque o sujeito tem fama de “expert”. Na prática, é o reconhecimento de que todos nós temos falhas, ainda que toleráveis.
E qual seria a origem dessa curiosa expressão?
Tudo indica que ela decorre do imaginário religioso vinculado à arte sacra, com destaque para o período do barroco no Brasil, estilo predominante no período colonial do século XVII, caracterizado pelo contraste, pela riqueza de detalhes, pela temática essencialmente religiosa e pela forte influência europeia adotada pelo Brasil daquela época, tendo seu auge ocorrido na escultura, na pintura na arquitetura), principalmente em Minas Gerais, Bahia e Pernambuco.
Na fase barroca, as imagens dos santos da Igreja eram esculpidas de forma perfeita, delicada, serena e inalterada, com os traços faciais e o próprio nariz bem definidos, realçando a beleza física idealizada pelo ser humano e a completa ausência de qualquer defeito física na obra de arte elaborada.
Acrescente-se que historicamente, a quebra do nariz das imagens ou estátuas era vista como mutilação apta a negar, tirar a honra e a ultrajar a respeitabilidade da obra representada, isso tanto no Brasil como em outros países, num quadro de lamentável vandalismo religioso, social, amoroso ou político.
É possível que alguns ainda lembram da icônica novela Roque Santeiro, exibida pela TV Globo entre 24/06/85 a 22/02/86, que galvanizou a audiência do público brasileiro, tendo como autores Dias Gomes e Aguinaldo Silva, um dos maiores sucessos de audiência da história da televisão brasileira, durante a qual houve a quebra do nariz da estátua do protagonista, pelo professor Astromar Junqueira (que na calada da noite “se gerava” em vampiro…).
A quebra do nasal da estátua de Roque, que dominava a pequena praça em frente à igreja local, configurou ato de vandalismo motivado por ciúmes, com a intenção de ridicularizar o ídolo da minúscula Asa Branca, tudo para chamar a atenção de Mocinha, deixando, entretanto, a população absolutamente chocada. Foi ato pensado pelos autores como forma de desmistificar a figura do herói, utilizando um gesto de destruição para gerar conflito, revolta e ciúme.
Assim, se em algum momento for dito por alguém da geração passada, que para a realização de qualquer obra, peça ou tarefa “NÃO PRECISA SER NARIZ DE SANTO”, tenha a certeza que tal metáfora indica de modo induvidoso que a aludida missão não exige alta performance para ser realizada, que o labor a ser desenvolvido terá seu valor e legitimidade reconhecidos e que eventuais deslizes durante a execução ou no resultado final serão tolerados…
(*) Célio Simões de Souza é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. É membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana, da Confraria Brasileira de Letras em Maringá (PR) e membro honorário da Academia de Letras e Artes da Polícia Militar do Estado do Pará. Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro titular do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados e recebeu três prêmios literários.