Ana Reis Josaphat

A apresentação reuniu: a excelência da Ensemble Philharmonique de l’Île de Cayenne; o vigor do Coro Vozes da Amazônia; e a delicadeza do Coro Carlos Gomes, com sua bela vestimenta branca adornada por motivos marajoaras – um tributo à cultura que canta com o corpo e com a terra. A maestrina, em sua condução firme e fluida, parecia o voo e o pouso de uma garça – leve, precisa, profundamente e elegante.
A catedral, com sua arquitetura imponente e acústica sublime, foi o palco ideal para a riqueza da música barroca. Cada nota parecia dançar entre os vitrais, tocando o coração dos presentes com uma precisão quase divina.
Fui sendo envolvida por músicas que eu não conhecia, mas que minha alma compreendia com inteireza. Era como se o som falasse uma língua universal, que não precisa de tradução. Com os olhos fechados, em comunhão, deixei-me levar. E então, veio o momento em que o Coro Vozes da Amazônia cantou o Ave VerumCorpus de J. Haydn e, especialmente, o Ave Maria de G. Fauré. Fui tomada por uma emoção tão profunda que as lágrimas vieram como cachoeira – e com esforço, contive o rio que teimava em ser mar.
Era uma falta tão grande que não sabia nomear. Vinha de um lugar desconhecido que me habita, mas consegui reconhecer: era a ausência de uma presença. Uma presença que faz falta – a comunicação intensa de mundos na palma das mãos. Afeto e amor. Era o desejo de um encontro que não se explica com palavras, mas que se sente na alma. Um anseio por olhares – intensos olhares, de reviver o trans tempo da memória em instante e renovar a eternidade.
A música, naquele instante, foi mais que som: foi ponte. Ligou o que está e o que falta, o que foi e o que ainda pulsa em esperança. E ali, na magnifica catedral e os ecos do órgão, compreendi que há ausências que não são vazios – são espaços sagrados onde o amor ainda respira, mesmo que em silêncio.
* Psicóloga Transpessoal, socióloga, professora, pesquisadora, aprendiz de poeta e da vida.