Aristides Dias

Foto: João Canto

Essa é uma frase da música do Teixeira de Manaus, muito conhecido pelos obidenses na década de 80, onde fez muito sucesso. A música pede passagem para que as pessoas ouçam o som de seu saxofone.

Óbidos perdeu nessa quinta-feira (05/02/2026) o seu mago do saxofone, Rosildo Marinho, que atravessou gerações com seu sax rasgando o silêncio da pequena Óbidos, seja na alvorada, seja nas procissões da festividade de Sant`Ana e durante o carnaval de Óbidos, desde os tempos dos blocos de sujo, como chamavam para os blocos de rua de antigamente, até a atualidade quando ele regia a orquestra do Pai da Pinga, com seu repertório impecável de carnaval.

Rosildo era um músico autodidata, nunca aprendeu uma partitura, mas tinha uma desenvoltura, um ouvido de dar inveja a qualquer músico letrado.

Ele escolheu justamente o período em que mais trabalhava como músico para partir pro andar de cima, a quadra momesca. Rosildo, sem dúvida é um ícone da cultura regional, um cidadão pacato que gostava de tocar seu saxofone, seja para o que fosse, fez do seu instrumento o seu prazer de viver.

Como muitos diziam, ele era “pau pra toda obra”; após saber de sua morte uma amiga comentou: “que pena, ele sempre tocava os parabéns pra mim, lá em Oriximiná, que meu pai levava ele”. Não tinha tempo ruim para o Rosildo, cansei de ver em plena cinco da manhã o pessoal acordá-lo para ir tocar a alvorada de Sant`Ana e ele estava sempre de bom humor, com aquele seu sorriso tímido.

São várias as “estórias” com o Rosildo. Tem uma que contam que o saudoso Nêgo Sabá estava bebendo no Bar Andrade em pleno domingo de carnaval e num determinado momento mandou buscar o Rosildo com o argumento que iria puxar um bloco. O músico prontamente pegou seu instrumento e partiu rumo ao famoso bar da época. Chegando lá encontrou o Nêgo todo sujo de maizena. Com sua bandinha aposta ele perguntou para o Nêgo Sabá: cadê o bloco? E logo escutou de resposta: o bloco sou eu, pode tocar. Ele deu aquele sorriso tímido e colocou a bandinha pra tocar.

Muita gente deve ter história com o Rosildo. Lembro também que tinha alvorada que a turma saía da ARP, já bem alta, em determinado momento enchia o sax dele de cerveja e ele não parava de tocar.

Acredito que o Rosildo era o último de uma geração de músicos raiz da cidade de Óbidos e que com certeza passará a ser uma lenda da cultura Pauxiara.

Dei a notícia em um grupo de internet em que faço parte e as reações foram essas:

– “Notícia triste. Várias alvoradas estarão marcadas em nossa memória!!

Vá em paz grande mestre Obidense”.

– “Pôxa alvorada sem ele pra mim não prestava, que ele descanse em paz”.

– “Tristeza! Que ele tenha o merecido descanso, na casa do Pai Eterno!”.

– “O grande mestre deixou um legado lindo para todos nós: não se abater nunca. Transmitiu seus conhecimentos a tantos jovens”.

– “Nossa! Alvorada foram muitas. O som do Sax dele de madrugada é inesquecível. Emoção pura!”.

Rosildo morreu aos 83 anos e ultimamente o músico vinha enfrentando problemas de saúde e já não estava mais participando do bloco Pai da Pingo, onde ele regia os metais.

Que o som do sax do Rosildo reverbere nas casas e na memória de todo obidense para sempre!

Rosildo com os mestres do saxofone de Óbidos.
Rosildo se apresentando com a banda Lazer na festa de Óbidos em Belém.

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