Quando eu era criança, costumava observar o grande manto das vitórias-régias, olhos atentos e curiosos – olhos de menina criada nas ribanceiras do grande rio-mar. Suas folhas gigantes, como barcos verdes, flutuavam sobre as águas escuras dos afluentes. Pareciam luas enormes, e em cada uma, com seus bastões em flor. Eu percebia a vida transcorrendo devagar. Uma lentidão que o tempo, sem pressa, não via passar.
As garças e piaçocas, com seus longos pescoços e passos delicados – ora gritos, noutras comunhão – pousavam sobre elas como se tivessem escolhido o palco perfeito para suas danças. Eu as admirava não apenas pela beleza, mas pela coragem de tocar o grandioso – aquilo que eu não podia alcançar, apenas assistir como plateia. Confesso que sentia inveja. Queria ser garça: leve, capaz de tocar o que parecia inalcançável.
No silêncio entre o vento e a água do rio, eu sonhava pousar nas majestosas vitórias-régias, respingar reflexos, sentir as águas entre suas raízes, ouvir seus sons, seus crescimentos, sua floração. Mas os sussurros da voz da minha mãe – ecoavam dentro da minha cabeça, dor de perder um irmão nos remansos e nunca o encontraram, sequer o corpo para o ritual de despedida – me acordavam . E eu não me aventurava a experimentar o que as aves se deliciavam.
Eu me perguntava se aquelas folhas-barco me levariam a desvendar mistérios, segredos que encerravam; se eu saberia pousar sem afundar com meu peso-pena. Ser ave seria ser ponte entre a terra e o peito da água, oferecendo-se em promessa de equilíbrio entre o sonho de voar, a vontade de experimentar tão delicada pista de pouso, e o grito potente em minha mente que me fazia recuar.
Hoje, aos 70 anos, de volta ao solo sagrado que me recebeu e de minha ancestralidade, as memórias flutuam como as vitórias-régias. Lembro da menina fina e calada que fui, cheia de perguntas que se estendiam além do que os olhos podiam ver. Navegava pela imaginação como quem navega por mundos misteriosos.
Com o tempo, aprendi que o mais importante não são as respostas que encontramos, mas as perguntas que fazemos. A curiosidade é o que nos move. O mistério não é um destino – é forma de se revelar no caminho.
As perguntas iluminam o caminho, guiam por mares tempestuosos, cortam a noite como remos e nos impulsionam, mesmo quando o rio é profundo demais.

  • Ana Reis Josaphat
    Psicóloga transpessoal, socióloga, professora, aprendiz de poeta e da vida

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