Saímos com os primeiros raios de sol, como quem escapa do tempo e do engarrafamento. Meu irmão não gosta de filas de carro – prefere a estrada livre e a visão desimpedida. No percurso entre falas e silêncios, Belém se revelou para mim com um ar rejuvenescido e esperançoso, vestida de seda e fita de cetim. O sol nos acompanhava como cúmplice, iluminando cada quilômetro, cada pensamento que desenhava a crônica que não foi escrita (é assim que acontece em um dos processos de inspiração).
Nesse estado, uma ideia atravessou minha mente como um raio – ou como um pássaro andarilho e inquieto: ficar mais tempo aqui, usufruir a cidade, sentir sua pele quente, sua gente, sua cultura, e estar presente no terceiro casamento do meu irmão. Às vezes, a vida pede pausas, criando raízes nas asas e asas nos pés, deixando que alguma coisa se manifeste… algo que faz parte do inesperado.
Chegamos à casa de Mosqueiro. Quis descer do carro ao passar pela mangueira, com o chão coalhado de mangas apetitosas, se oferecendo aos meus olhos com fome de comer fruto no pé. O quarto chalé da Avenida Beira-Mar é um relicário de 1904, tombado pelo patrimônio histórico – portanto, intocável. Um espaço que se estende por cerca de 200 metros e termina (ou começa?) na Avenida Dezesseis de Novembro, em frente ao Mercado Público do Chapéu Virado.
Ali tudo respira memória: mangueiras, cupuaçuzeiros, bananeiras, cacau, goiabas, coqueiros, açaí, abricó, sapotilha, plantas calmantes, chicórias que se esparramam pelo terreno, as tímidas alfavacas – como quem pede licença para existir – acerolas, canelas. Um galinheiro pintado com as cores do chalé -rosa e azul, no tom do Paysandu. Tudo tem história, e o mano gosta de contar: uma variedade de banana desenvolvida pela Embrapa, outra coisa ali, outra acolá. Tudo em comunhão, em diálogo com o vento, com o sol, com a chuva – e com as mãos e olhos do Lino, que mantém tudo funcionando e limpo.
No coração do quintal, ergue-se uma centenária seringueira, majestosa, como uma guardiã do tempo. Sua floração acontece no inverno, e é aí que o mistério se revela: como pode uma árvore tão grande produzir flores tão pequenas e delicadas? Essa pergunta me acompanha como o segredo – natureza que não se explica – proporções que desafiam à lógica e convidam à contemplação.
É um santuário ecológico, mas também um altar de afetos. Cada canto guarda lembranças nossas e dos que vieram antes – um casal português que insiste em permanecer entre os vivos: a mulher cozinha, ajeita vasos imaginários, enquanto o homem prefere a sala, onde o relógio marca as horas que não existem nesta dimensão. Muitas vezes percebia passos, vozes que se misturam ao som das marés. Antigamente, dormíamos espalhados pelos quartos, varandas, salas, em redes – era uma festa para nós. Mas, ao dormir, alguns percebiam o desagrado pela invasão de seus espaços.
Nas manhãs, despertamos com o canto dos sabiás, e durante o dia avistamos outros pássaros que cantam, transitam e se alimentam das frutas. A propriedade ganhou cinco apartamentos para abrigar a família e os amigos. Mas as refeições e as brincadeiras são realizadas na “Casa Grande”, diante da praia que nos chama com sua voz líquida – outras vezes com rumores. Basta atravessar a rua e já estamos nela. Antes havia ajirus na areia; hoje, nem vestígios. A paisagem é dominada por barracas que avançam com cadeiras e guarda-sóis. A praia se estende até o farol, lá na curva do hotel e da Ilha do Amor, onde o horizonte parece guardar o que só o mar conhece.
Entre Belém e Mosqueiro, minha cabeça girou 180 graus. Às vezes, é preciso sair para voltar diferente. E eu voltei – com a percepção de que a vida é vivida em intervalos: pedaços de tempo que nos possibilita reinventar o ser.
*Socióloga, professora, psicóloga transpessoal , aprendiz de poeta e da vida.
