Aristides Dias

Tem uma música que diz que o dono da lancha é que tem a cabeça branca, aquele que tem a grana e automaticamente o poder. Ouvindo esses versos, me lembrei que vivi situação análoga com a sensação de poder.

Estava eu, indo para o carnaval da cidade de Óbidos, um dos melhores da região Oeste do Pará, se não for o melhor. Era um sábado e o voo era para Santarém (para quem não sabe, tem que ir de avião até Santarém, depois enfrentar mais três horas navegando pelo rio Amazonas para poder chegar mais rápido na Cidade das Ladeiras). E foi justamente o que fiz.

Peguei o voo 12h para chegar às 13h em terras Mocorongas, e sair direto do aeroporto para a lancha que desatracava do porto no máximo 13:20h, ou seja, o voo não podia atrasar nada, caso contrário perderia a viagem e só poderia chegar no meu destino no domingo, um dia depois, visto que, no sábado não tem viagem de barco a noite.

Pois bem, embarquei em Val-de-Cans com a esperança na mochila de que tudo iria dar certo, pra isso teria que ir só com bagagem de mão. Uma hora depois de uns sacolejos lá em cima, pousamos no Maestro Wilson Fonseca. Eu agoniado para sair e aquela fila esperando a porta se abrir, aí lá se vão alguns minutos, até que finalmente a fila andou e eu cheguei na escadaria do avião, onde eu saí quase com a velocidade da aeronave em modo viagem. Tudo para não perder a lancha.

Um carro já me esperava no estacionamento do aeroporto e a outra ponta da viagem, um parceiro dos bons, se incumbia de segurar a embarcação pra eu não perder a viagem. Quando entrei no carro de seu filho ele liga, eu atendo e ele diz: “vem voando que eu não estou mais conseguindo segurar a lancha, acho que tu vai ficar”. Olhei pro filho dele como quem diz: ta contigo a parada.

Ele tirou uns dez a quinze minutos até o porto e pra minha alegria a lancha estava com o motor ligado, com todos os passageiros dentro, esperando só a minha chegada. Na proa o meu parceiro e o comandante da lancha me aguardavam. Cheguei meio sem graça cumprimentei o comandante e adentrei na embarcação lotada só com minha poltrona vazia. Quando eu surgi no recinto, parecia que era uma autoridade chegando ou o dono da lancha, pois todos voltaram-se para mim, fiquei imaginando cada cabeça fazendo sua indagação. Quem será esse cara que fez a lancha correr o risco de ser multada por atrasar a viagem só por causa dele?

Dei cara dura em todos, não olhei pro lado e fui direto pra minha poltrona onde deixei minha bagagem e segui até o bar, onde meu amigo já me aguardava para começar os trabalhos. Depois de uma hora de viagem e umas latinhas consumidas, o piloto foi lá falar com a gente, foi então que meu amigo me apresentou de verdade e disse: Esse que é o assessor do governador”, o comandante apertou minha mão me desejou boas vindas e se colocou a minha disposição. Olhei pro meu parceiro e disse: essa que é uma mentira necessária. Caímos na risada e depois foi só viver o Carnapauxis.

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