Ana Reis Josaphat

Ontem foi domingo, mas não um domingo qualquer. Foi dia de fé – não aquela que se dobra em oração, mas a fé que se ergue em palavras, em passos que seguem prédios como seguem memórias.

Michel Pinho, historiador de voz firme e alma inquieta, guiou uma multidão como quem guia um rio: fluindo entre construções de pedra e tempo: não repete os livros – os desmonta, desalinha a história, puxa fios soltos, mostra as costuras tortas que ninguém viu; recolhe contradições, poeiras, silêncios; garimpa nas fontes como quem busca pepitas de sentido; e oferece tudo com uma clareza que chega a doer – como quando o sol reflete na água e obriga a gente a piscar para continuar vendo.

Era aula, não passeio. Era procissão, não caravana turística. E cada parada: Forte do Presépio, a origem do nome; Solar da Beira, Mercado do Peixe, Mercado da Carne e |Pedra do Peixe; os casarões da Boulevard da Gastronomia- Belle Époque e;  Porto Futuro II – eram estações – altar onde o passado se reinventa no presente. Com três caixas de sons, conduzidas por anônimos bicicleteiros, uma delas animava as passadas ao   ritmo  do carimbó ; uma escada doméstica, como púlpito improvisado; e uma voz que precisa de microfone para ser ouvida, o professor fez do asfalto da cidade um caderno aberto, e de cada prédio, página viva.

Caminhamos com ele, milhares. Quando ele pergunta – quem era turista e está, na Cop30, pouquíssimos erguem as mãos tímidas. Os outros ficam  em silêncio, um silêncio de pertencimento, de reconhecimento. A cidade, naquele instante, parecia nos olhar de volta – paraenses! Olhos atentos, como quem busca não apenas saber, mas compreender -compreender o que fomos, o que somos, e talvez, o que ainda podemos ser.

O professor revelou que seu interesse por história, veio de seu bisavô que colecionava jornais, como quem coleciona tesouro. E ali, entre manchetes amareladas, nasceu o historiador que hoje espalha vozes, como sementes no concreto da cidade. A aula pública – a maior do Brasil, ele faz questão de sublinhar – termina quando o século XVII se encontra com o XXI. Tudo regado à emoções. Mas algo em nós continua, lateja, se alonga.

Voltei para casa com a sensação de que a cidade tinha ganhado contorno.
Como se Michel tivesse passado um pano na lente do tempo. E, por alguns minutos, nós todos enxergamos. Não apenas prédios. Mas a História pulsante que insiste teimosamente, em sobreviver na voz e na escrita de visionários como Michel Pinho.

*Socióloga, pesquisadora, professora, psicóloga transpessoal e aprendiz de poeta e da vida

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